Adalgisa de Oliveira Silva Dias

As Condições de Trabalho e de Saúde dos Motoristas de Ônibus na Cidade do Rio de Janeiro

Resumo:

O presente artigo tem por objetivo avaliar as condições de trabalho dos motoristas de transporte coletivo urbano da Cidade do Rio de Janeiro, identificando e delimitando as disfunções do baixo rendimento concernentes às condições ergonômicas. A atividade profissional do motorista de transporte coletivo urbanos possui peculiaridades em sua essência, tais como: exposição a fatores nocivos à saúde, vandalismo, veículos com condições inadequadas quanto à ergonomia, dentre outros aspectos que contribuem para o declínio da qualidade da saúde em seu âmbito total, ou seja, físico, psicológico e social. Ações empresariais e governamentais relacionadas aos aspectos identificados neste artigo como prejudiciais à qualidade de vida no trabalho requerem atitudes em relação a melhorias das condições de trabalho com prioridades voltadas para ações ergonômicas e, assim, possibilitar maior conforto, bem-estar e, principalmente, prevenir e/ou eliminar o surgimento de doenças ocupacionais. Dessa forma, contribuindo para a proteção e a promoção da saúde bem como para a obtenção de melhorias nos serviços prestados à população.

Palavras-Chave:Motorista de Ônibus. Saúde e Trabalho. Ergonomia. Doenças Ocupacionais.

1 Introdução

Este artigo analisa a vida profissional dos motoristas de ônibus urbano da Cidade do Rio de Janeiro. Inicialmente, fez-se um apanhado histórico sobre o ônibus e o posto de trabalho deste profissional. Em seguida, foram relatados os custos humanos, físicos e psíquicos envolvidos no desempenho desta atividade.

Desde a antiguidade há registros da relação entre os processos de trabalho e sua influência sobre a saúde e o adoecimento das populações. O ser humano trabalha para sua sobrevivência, recebendo um salário às vezes insuficiente para a sua subsistência. Essas condições de trabalho do ser humano embotam a expressão de outras necessidades, como as de lazer e de satisfação pessoal e, nessa visão, o trabalho aparece afastado do prazer, contribuindo para que o ser humano nem sempre consiga encontrar, nas horas vagas, meios de satisfação que compense o trabalho exaustivo (MORENO, 2009).

O rápido processo de crescimento da economia nos últimos anos vem refletindo nos trabalhadores inseridos no mercado de trabalho. Sabe-se que dentro desse processo de trabalho podem vir a surgir alguns problemas de saúde o que interfere na qualidade de vida desse trabalhador. A saúde e a qualidade de vida dos trabalhadores são pilares necessários para que a empresa tenha equilíbrio, crescimento e uma excelência nos produtos e serviços. E isso somente se tornará possível quando o trabalhador tiver o incentivo da empresa quanto ao conhecimento, condições de trabalho, projetos educativos, e a valorização do ser humano como um todo, e não apenas como parte geradora de mão de obra e lucro (ARENDT, 2007).

O trabalho como componente inseparável das vivências cotidianas é parte fundamental do processo das construções históricas e sociais, no espaço dos sonhos, das aspirações e dos desejos. Quando o trabalhador está distanciado desses fatores e não conta com planejamento de prevenção do adoecimento no trabalho e ainda somado aos inúmeros problemas de saúde, sobretudo relacionados a tensões emocionais, problemas de ordem familiar, ambiente, remuneração, sobrecarga e desmotivação com o trabalho, implicam de forma indireta em sua saúde, levando-o ao adoecimento (DAVIES e SHACKLETON, 1977).

A profissão de motorista de ônibus urbano requer uma análise aprofundada, tendo em vista que foi identificada como uma das mais estressantes e a que expõe os trabalhadores a variados riscos à saúde. A saúde física e mental dos motoristas é, sem dúvida, reflexo das condições de trabalho dessas pessoas. Diante disso, pode-se pensar que os motoristas de ônibus urbanos que se mantêm trabalhando são sobreviventes das graves adversidades e ao alto nível de estresse no trabalho. Porém, alguns podem resistir mantendo-se relativamente saudáveis, enquanto a grande maioria desenvolve sintomas, adoecem e até mesmo se afastam do trabalho.

Em relação às consequências para a sociedade, a elevada proporção dos acidentes de trânsito entre as causas externas merece atenção especial das autoridades. Muitas causas de acidentes de trânsito se devem à má conduta e saúde do motorista que, conforme colocado, podem ser consequências das suas condições de trabalho. Tal questão surgiu durante a verificação de que os trabalhadores do transporte representam um grupo que interfere no dia a dia da sociedade, quando os mesmos estão ausentes, e o processo de adoecimento pode estar associado ao local de trabalho, podendo contribuir para a diminuição da sua qualidade de vida.

Os problemas de qualidade, agilidade, e operação do sistema de transportes nas grandes cidades se tornaram indispensáveis nos estudos técnicos hoje em dia, e o objetivo deste artigo é analisar os problemas de saúde física e mental dos motoristas de ônibus na Cidade do Rio de Janeiro. A saúde sob a ótica dos profissionais é diversificada e tem diversos ramos ligados a ela. Embora haja grandes esforços por parte dos órgãos governamentais em articular os meios de promoção da saúde, ainda falta interligação entre as redes de atendimento e uma filosofia de trabalho em comum para se alcançar os fatores determinantes de uma boa qualidade de vida para a população.

A realização de estudos, avaliações e pesquisas das condições de trabalho torna-se de suma importância para garantir saúde de qualidade e prevenir riscos ocupacionais aos motoristas de ônibus da Cidade do Rio de Janeiro.

2. Discussão

2.1 O homem e suas relações com o trabalho

2.1.2 O Trabalho

O trabalho pode ser considerado um elemento organizador na vida do trabalhador, porém a dinâmica do trabalho lida com o sofrimento relacionado à prática e ao ambiente profissional. Assim sendo, pode gerar processos de adoecimento, bem como ambientes profissionais que podem favorecer a problemas de saúde e prejudicar a qualidade de vida no trabalho.

Segundo Moreno (2009 p. 1), o termo ‘trabalho’ é originária da palavra em latim trapalium, um instrumento de tortura, uma espécie de tripé construído por três estacas cravadas no chão, onde eram torturados os escravos. Pouco a pouco esse instrumento foi desaparecendo, cedendo lugar aos métodos de tortura da Inquisição[1], mas, como diz Moreno (2009 p. 1), “vão-se os objetos, ficam as palavras”.

Por volta do século XII, o termo já fazia parte das línguas românticas e em todas essas línguas o termo adquiriu características de substantivo abstrato, significando tormento, agonia, sofrimento. De acordo com Davies e Shackleton (1977), os primeiros cristãos consideravam que o trabalho era um castigo pelo pecado original do homem, mas também atribuíam significado positivo a ele porque por meio dele poderiam ajudar os menos favorecidos economicamente.

A partir do Renascimento, o termo trabalho adquiriu também o sentido atual de labuta, atividade, exercício profissional (MORENO, 2009). Uma das mais simples definições de trabalho talvez seja a de que ele constitui o meio pelo qual são produzidos os bens e serviços que a sociedade deseja. Guarechi e Grisci (1993) descrevem a abordagem histórica da evolução do processo de trabalho do século XV ao século XIX o que possibilita ampliar a compreensão das organizações de trabalho existentes nos dias atuais. Os artesãos da Idade Média durante o século XV acompanhavam todo o processo de seu trabalho, o que foi se transformando pouco a pouco com o surgimento da divisão do trabalho e o advento da manufatura no século XVII.

A mudança radical no modo de produção e no processo de trabalho foi durante o século XVIII, com o desenvolvimento da grande indústria. O aparecimento das máquinas introduz um novo tipo de relacionamento no trabalho, alheio a subjetividade do trabalhador. A modernidade desenvolveu com a indústria um modo de transformação da matéria que alterou substancialmente os modos de produção, elevando o trabalho orquestrado pelo tempo e amparado pela máquina, esta com quem o homem mantém até os dias de hoje uma relação ambígua. Karl Marx (1988) foi o primeiro pensador a eleger o trabalho como categoria principal de seus estudos. A crítica ‘marxiana’ não recai sobre o trabalho em essência, mas nos modos de exploração do mesmo.

O trabalhador, além de usar sua mão de obra como moeda de troca, precisa produzir a mais-valia[2], deixando-se levar pela aparente vantagem em trabalhar em horários que vão além do seu turno de trabalho (horas extras) a fim de aumentar a produção da empresa em troca de um acréscimo em seu salário, não se dando conta de que realmente o que está sendo vendido ao empresário não é apenas o seu trabalho, mas sua força de trabalho. Por força de trabalho ou capacidade de trabalho (Marx 1818 – 1883/1998 p. 198) assim define: “(...) O conjunto de faculdades físicas e mentais existentes no corpo e na personalidade viva de um ser humano, as quais ele põe em ação toda vez que produz valores-de-uso de qualquer espécie”.

O trabalho como o centro da vida das pessoas, com consequências paradoxais para a integridade física, psíquica e social dos trabalhadores, é o que se constata na opinião de Mendes e Cruz (2004). De um lado, o trabalho como constituinte da identidade do trabalhador, assumindo um papel fundamental para assegurar a saúde, de outro, a precariedade das condições e a falta de oportunidades, de desenvolvimento profissional, contribuindo para o adoecimento do indivíduo.

2.1.3 A Saúde

Segundo Mendes e Cruz (2004), a saúde enquanto condição de vida e de exercício pleno da cidadania é fator condicionante das relações sociais e do processo de produção. A concepção e a proposição de ações em saúde, não surgem por um simples jogo do pensamento, mas tem origem na experiência concreta dos indivíduos com o mundo material objetivo, no processo histórico-cultural no qual estão inseridos, nas relações com as coisas e a natureza que o cercam e nas relações das pessoas entre si. O conhecimento humano que se opera a partir da determinação do saber, está intimamente ligado ao conjunto de relações que constituem o tecido social e à sua estrutura econômica e política. A saúde tem em seu horizonte o indivíduo, a família, a comunidade e o fruto do trabalho interdependente com o meio ambiente, fator biológico, estilo de vida e a cultura.

Promover saúde é educar para a autonomia como construído por Paulo Freire, é tocar nas diferentes dimensões humanas, é considerar a afetividade, a amorosidade e a capacidade criadora e a busca da felicidade como igualmente relevantes e como indissociáveis das demais dimensões. Por isso, a promoção da saúde é vivencial e é colada ao sentido de viver e aos saberes acumulados tanto pela ciência quanto pelas tradições culturais locais e universais (BRASIL, 2002 p. 13).

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define-a não só como a ausência de doença, mas como uma situação de perfeito bem-estar físico, mental e social. Esta definição serve, sobretudo, para entendermos que a saúde tem diferentes dimensões que não só a saúde física, assim como componentes individuais e subjetivos. Deste modo, o conceito de saúde não é igual para todas as pessoas, depende do indivíduo, dos contextos econômicos, sociais, culturais e políticos, englobando as diferentes dimensões de modo interligado.

2.1.4 O Direito à Saúde

Morais (2009) aponta que o direito à saúde está intimamente ligado ao bem da cidadania e da vida, direitos inalienáveis de todos. Não se pode esquecer as políticas sociais que enveredem à busca de decisões judiciais positivas e opções políticas constantes que se manifestem em favor ao direito à saúde, à vida saudável de todos os cidadãos brasileiros. A concretude dos direitos desta natureza pode ser manifestada por intermédio do Estado e do Segundo Setor.

A Constituição Federal – CF/88, em seu artigo 5º, garante a inviolabilidade do direito à vida, indistintamente, a todos os brasileiros e estrangeiros residentes no país. É o direito mais essencial do indivíduo e indispensável para a garantia de todos os outros. Segundo Morais (2009 p. 167):

A constitucionalização dos direitos humanos fundamentais não significa mera enunciação formal de princípios, mas a plena positivação de direitos, com base nos quais qualquer indivíduo poderá exigir sua tutela perante o Poder Judiciário, para a concretização da democracia. A proteção judicial é absolutamente indispensável para tornar efetiva a aplicabilidade e o respeito aos direitos humanos fundamentais previstos na Constituição Federal e no ordenamento jurídico em geral.

O direito à vida pressupõe não só o direito de continuar vivo, como também o direito a uma vida digna. Consequência constitucional e indissociável a estes direitos é o direito à saúde. A Constituição consagra a saúde como um direito de todos e dever do Estado, em seu artigo 196º, visto que define que o direito à saúde reger-se-á pelos princípios da universalidade e da igualdade. Este dever do Estado torna imprescindível sua obrigação de prover aos cidadãos todos os meios e formas de garantir esse direito tão importante e extremamente ligado ao direito maior que é a vida, resume Morais (2009).

Pela forma como o direito à saúde foi inserido na Constituição de 1988, de forma ampla, instituindo o seu acesso universal e igualitário, ainda que remeta a regularização das ações e serviços de saúde ao legislador, não se afasta o seu reconhecimento como direito subjetivo individual, sendo antes de tudo implícito e decorrente do direito à vida e do princípio da dignidade da pessoa humana.

2.1.5 A Saúde do Trabalhador

O trabalho pode ser considerado um fator que transforma as condições de viver, adoecer e morrer, sendo assim o mesmo trabalho que traz crescimento, sustento e dignifica o homem, pode também trazer-lhe condições de sofrimento, adoecimento quando realizado em condições precárias que não condizem com as capacidades como ser humano.

Além disso, há que se considerar que o crescimento econômico transforma o cotidiano da sociedade, sociedade esta que ainda convive com a pressão, o estresse, competitividade, e as exigências de qualidade nas atividades exercidas (CARVALHO, 2001), além de jornadas cada vez maiores, para que todos disponham de serviços cada vez mais rápidos.

Dessa forma, convivemos com as consequências advindas das contínuas transformações que se operam no mundo ocidental geradas desde a revolução industrial a globalização da economia e a entrada no mercado de trabalho de novas tecnologias altamente sofisticadas. Todo esse processo modifica de forma significativa o ambiente, as condições e a organização do trabalho, interferindo no processo saúde-doença dos trabalhadores (BRASIL, 2011, p. 232).

Segundo Carvalho (2001), estar em pleno estado de saúde é um fator básico para a qualidade de vida do trabalhador. Os trabalhadores constituem uma porcentagem de extrema importância das comunidades, e a proteção da sua saúde, favorece para o desenvolvimento social e econômico do país.

O complexo estado de saúde do trabalhador reflete diretamente na sua atuação, nesse sentido, estar bem consigo mesmo, ter um bom relacionamento familiar, praticar atividades físicas, ter uma alimentação equilibrada, manter um bom relacionamento com a empresa e colaboradores certamente são veículos básicos para ter saúde e qualidade de vida. O ser humano já dispõe de conhecimentos e informações que podem contribuir bastante para a qualidade de vida. Porém, por melhores que sejam as condições de trabalho e de vida, a população de trabalhadores ainda convive com doenças relacionadas à sua atividade laboral.

2.2 O Transporte Coletivo

2.2.1 O início do transporte coletivo no mundo

O ônibus, enquanto forma de transporte público, tem suas origens na cidade francesa de Nantes, em 1826. Segundo Stiel (2001), o termo ônibus acabou sendo popularmente instituído para se referir ao meio de locomoção graças à chapelaria Omnes, local onde o serviço fazia seu ponto final e estacionava os veículos. Assim, foi feita uma espécie de jogo de palavras com o nome do estabelecimento e com o termo omnibus, proveniente do latim: Omnes Omnibus (tudo para todos). Logo os usuários das diligências passaram a usar o termo ‘omnibus’ para denominá-las.

Porém, a ideia do ônibus como transporte coletivo foi um grande sucesso, tendo se espalhado por várias partes do mundo. Em Londres, o primeiro serviço de transporte coletivo é datado em 1829, assim como em Nova York.

Veiga (2004) afirma que com o desenvolvimento do capitalismo e a ocorrência das sucessivas Revoluções Industriais, as grandes cidades no mundo passaram a crescer e a concentrar a maior parte da população mundial. As pessoas, a partir daí, passaram a ter a necessidade de se deslocarem em grandes distâncias, mesmo quando o destino final encontrava-se na própria cidade de origem.

Veiga (2004), refere-se ao transporte para o novo milênio afirmando que:

Hoje, o mundo em que vivemos já não parece tão grande, se considerarmos o desenvolvimento das tecnologias para comunicação e meios de transporte. Mas nos anos 20, a realidade era bem diferente. A falta de veículos confortáveis e de estradas adequadas mantinha as comunidades muito isoladas nas suas localidades, cujas distâncias hoje vencemos em poucos minutos, num transporte coletivo confortável, oferecido diariamente e em diversos horários.

De fato, a sem precedente e instantânea intimidade física que era praticamente imposta aos passageiros do serviço de ônibus era uma realidade impactante, de certa forma, até mesmo para os mais liberais. Desta forma, pode-se dizer que o sistema de locomoção trouxe consigo consideráveis e novas experiências sociais para a sociedade da época.

2.2.2 A história do ônibus no Brasil

No Brasil, o primeiro transporte tipo ônibus surgiu em 1817, no Rio de Janeiro, quando D. João VI concede a Sebastião Fábregas de Suriguê uma concessão da exploração de duas linhas de transporte de pessoas. A diligência tinha quatro rodas e era puxada por quatro cavalos ou mulas. O tempo de viagem entre Santa Cruz e o Centro do Rio durava mais de cinco horas, e havia quatro mudas de animais durante o trajeto (REVISTA ÔNIBUS, 2004).

Em 1837 foi fundada a Companhia de Omnibus, iniciativa do desembargador Aureliano de Souza e Oliveira Coutinho. Porém, o surgimento dos bondes em 1868 interrompeu a ascensão do ônibus. Este período durou 40 anos quando surgiu o auto-ônibus.

O auto-ônibus surgiu no Rio de Janeiro em 1908, três anos depois de circular pela primeira vez em Paris. Era um ônibus à gasolina e fazia o percurso Praça Mauá – Passeio Público. Logo surgiram outras linhas.

Nesta época surge também o emprego do trólebus (ônibus elétrico), com o intuito de se aproveitar à rede elétrica existente para os bondes. Seu declínio ocorreu em função da rigidez das rotas, o custo de operação superior ao do ônibus a diesel, a menor confiabilidade em relação aos ônibus a diesel e a massificação do uso do automóvel, sobretudo nos países ricos (FERRAZ e TORRES, 2001).

De forma crescente o movimento de passageiros se firmou e o ônibus deixou de ser complemento de transporte de massa, como o trem e o bonde, e passou a galgar o status de principal meio de transporte público. O ônibus se tornou importante por diversos motivos, entre os quais: de permitir acesso a inúmeros lugares sem necessitar colocação de trilhos, era mais rápido e tinha o horário mais flexível que os bondes e trens. Os anos 50 trouxeram, para os ônibus, diversos melhoramentos, entre os quais a direção hidráulica, a transmissão automática, os pneus sem câmara e a suspensão a ar.

O ônibus se consolidou efetivamente na década de 60, quando surgiram as lotações. Eram veículos de lotação mínima de 10 e máxima de 21 passageiros. Em 1963, Carlos Lacerda, governador do antigo Estado da Guanabara, lançou um plano contendo as diretrizes básicas do sistema de Transporte Coletivo do Estado da Guanabara, onde decretou que o ônibus passaria a ser o único veículo rodoviário admissível no transporte coletivo.

Segundo Juruá (1990), durante as décadas de 60 e 70 o Rio de Janeiro viveu um retrocesso em matéria de transportes urbanos de massa, ou seja, barcas, trens e metrô.

2.3 Condições de Trabalho e Saúde do Setor no Rio de Janeiro

2.3.1 Trabalho e Saúde dos Motoristas de Ônibus

A análise das condições de trabalho dos motoristas de ônibus urbano é uma tarefa complexa, em decorrência dos diversos aspectos que caracterizam a atividade. Considerando a diversidade da atividade profissional do motorista e a impossibilidade de compreensão de todos os aspectos de suas condições de trabalho, esta análise irá abordar os temas que surgiram com maior frequência como queixas de desgaste.

Ramos (1991) realizou uma investigação sobre as condições e a organização de trabalho dos motoristas, apoiando-se nas contribuições teórico-metodológicas da Ergonomia, do Modelo Operário Italiano e da Psicopatologia do Trabalho. Os resultados apontaram que as condições de trabalho repercutem na saúde do motorista, desencadeando problemas intestinais, de coluna vertebral, cefaleia, crises nervosas, hipertensão e ataques cardíacos. Além destes, a operação do veículo (ônibus) e o tráfego, assim como os engarrafamentos e a má conservação das vias, concorrem para acidentes de trabalho.

Ressalta-se que a vida no ambiente de trabalho e fora do ambiente de trabalho, ou seja, os espaços da produção e do consumo estão de tal forma interligados que não é possível separá-los e, assim, eles se auto-influenciam. As condições nas quais o trabalho é realizado podem atuar tanto na melhoria das habilidades humanas- oferecendo melhor qualidade de vida e saúde- quanto provocando o adoecer, o agravamento do adoecer e até mesmo diminuindo os anos potenciais de vida dos trabalhadores (BRASIL, 2011, p. 233).

Os motoristas se deparam com condições de tráfego desfavoráveis, movimentos repetitivos, ruído, precárias condições operacionais do veículo e atendem, ainda, a demandas dos passageiros. Desse modo, a implementação de programas que consistem em promover ambientes de trabalho seguros e saudáveis são de extrema importância para minimizar os potenciais riscos de acidentes e doenças no setor de transporte coletivo de passageiros na Cidade do Rio de Janeiro.

2.4 A Ergônomia

A Ergonomia é considerada uma ciência do trabalho que atua especificamente na investigação das condições de conforto, segurança, eficiência e saúde no trabalho. Esses aspectos são estudados a partir da Análise Ergonômica do Trabalho que, segundo as características fundamentais da tarefa, pretende elucidar seus efeitos sobre a saúde do trabalhador e os resultados do seu trabalho. Analisando as características do local de trabalho que podem produzir estresse psicológico, Smith (1987) e Cooper e Marshall (1976) apontam aspectos como: a carga de trabalho inadequada, o ambiente hostil, a ambiguidade de funções, a falta de tarefas estimulantes, a sobrecarga cognitiva, o relacionamento conflituoso com supervisores ou com outros companheiros de trabalho, a falta de controle sobre as tarefas ou sobre a tomada de decisões e a falta de apoio social por parte de empresários, supervisores, companheiros de trabalho ou familiares, dentre outros.

A ergonomia pode ser defina como o trabalho interprofissional que, baseado num conjunto de ciências e tecnologias, procura o ajuste mútuo entre o ser humano e seu ambiente de trabalho de forma confortável e produtiva, basicamente procurando adaptar o trabalho às pessoas (COUTO, 2006, p. 6).

Para Slack et al (2002), é preciso compreender como esse ambiente afeta o desempenho. A fadiga, o desgaste, os danos físicos e psicológicos são parte da abordagem ergonômica do posto de trabalho.

Segundo Wisner (1987), os riscos que advêm do local de trabalho podem ser avaliados segundo seus principais agentes: calor, ventilação e os aspectos ergonômicos. Os motoristas de ônibus expostos ao excesso de ruído estão mais propensos à surdez ocupacional, assim como pode levar a uma alteração de seu comportamento associado ao barulho constante. O ruído no trânsito, além de potencial causador de surdez ocupacional, pode também agir contra a saúde mental do motorista profissional. A fadiga e a irritabilidade são exemplos de reações ocasionadas aos profissionais que ficam expostos a ruídos intensos. Desse modo, a poluição sonora vem a ser um perigo à saúde pessoal, à estabilidade emocional e à eficiência do motorista (IIDA, 2005).

Outro fato importante a considerar é o prolongamento da jornada de trabalho, que em conjunto com os demais fatores acima potencializa os danos à saúde do trabalhador. Câmara & Balassiano (1996) afirmam que a dobradinha, turno duplo de trabalho, e a troca das férias por um mês a mais de salário é uma prática muito comum entre os motoristas de ônibus urbanos na Cidade do Rio de Janeiro.

O prolongamento do trabalho, com as horas extras, pode possuir um duplo significado, que para Mendes (2004) são identificados como um acréscimo na renda pessoal e também como um cansaço extra. Os motoristas são expostos a situações profissionais que produzem diferentes efeitos no trabalhador, como tensão, fadiga, estresse e situações adversas criadas, muitas vezes, pelo trânsito.

2.4.1 Riscos Ocupacionais

As condições ambientais desfavoráveis no posto de trabalho podem se tornar uma grande fonte de tensão na execução das tarefas, que podem causar desconforto, insatisfação, aumento do risco de acidentes, diminuição da produtividade, aumento dos custos e pode causar danos consideráveis à saúde (IIDA, 2005). Dentre os principais: os riscos físicos provenientes do próprio ambiente de trabalho, como o calor, o ruído e a vibração, que agem diretamente na saúde física e mental do motorista; os riscos químicos, gases tóxicos derivados da combustão dos veículos automotores; os riscos ergonômicos, relacionados ao assento, a visibilidade, ao conforto térmico, a iluminação, ao estresse entre outros; e os riscos de acidentes, principalmente os de trânsito e a violência (Mendes 1999).

Mendes (1999) indica que o trânsito, o risco de assaltos e agressões e a pressão decorrente das exigências de cumprimento dos horários são fatores que no dia a dia criam um clima de permanente “nervosismo”, sem esquecer o contato com passageiros, o que se apresenta como o principal fator de desgaste. A forma como os passageiros se comportam e tratam os motoristas através de hostilidade, ou mesmo, vandalismos, os assaltos sofridos, o constrangimento, o medo e o sentimento de impotência diante dessas situações, expressa com maior intensidade os desconfortos emocionais ligados a aspectos de seu trabalho.

3. Conclusões

O trabalho de motorista de ônibus é uma atividade que necessita atenção redobrada durante toda jornada de trabalho. A prevenção primária e a detecção precoce são as formas mais efetivas de evitar as doenças e suas complicações devendo ser metas prioritárias junto a esses profissionais que prestam serviços essenciais à sociedade.

A melhoria das condições de trabalho dos motoristas de ônibus coletivo urbano é fundamental para que se possa ter um serviço satisfatório para a população. A elaboração de propostas consequentes e a implementação de mudanças, entretanto, é uma decisão que extrapola a dimensão essencialmente técnica da questão. Mudanças nas condições de trabalho dos motoristas de ônibus coletivo urbano são de responsabilidade dos diversos atores envolvidos no processo. Melhorando as condições de trabalho dos motoristas poder-se-á ter um efeito multiplicador no desempenho da atividade considerada prioritária à população.

É pertinente esclarecer que o presente trabalho não teve a pretensão de esgotar o tema analisado, visto ser demasiadamente extenso e com alto grau de complexidade. Pesquisas futuras podem ser realizadas no sentido de maior aprofundamento na analise de cada uma das unidades temáticas aqui elencadas quanto à percepção dos motoristas de ônibus a respeito dos riscos ocupacionais inerentes a sua profissão.

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Adalgisa de Oliveira Silva Dias
  • Adalgisa de Oliveira Silva Dias Assistente Social
  • Possui Graduação em Serviço Social pelo Centro Universitário Plínio Leite - UNIPLI (2010), Especialização em Gestão de Saúde pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ (2013), Especialização...

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